E o Verbo se fez carne

E O VERBO SE FEZ CARNE
JO 1:14 Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do unigênito vindo do Pai, cheio de Graça e de verdade.
                  Certa vez num congresso ouvi uma afirmação do pastor Carlos Queiroz onde ele dizia que a vida de Jesus contraria um ditado popular que diz: “errar é humano”. Para o Carlos, segundo os evangelhos, errar é desumano. Isso levando em consideração que Jesus foi a plenitude da humanidade.
                  Entendo que o Carlos Queiroz tem razão, principalmente quando lemos o verso acima. Nossa cultura evangélica criou a ideia de que tudo que é projeto de espiritualidade passa longe do ser humano, ser gente, de carne e osso. Quanto mais espiritual uma pessoa, menos ela deve estar “envolvida com as coisas desse mundo”. Creio que erramos quando separamos o mundo espiritual do nosso mundo, o espiritual do humano. Confundimos o sistema desse mundo – com o qual não devemos nos envolver – com o mundo em si e as pessoas que o compõe.
                  O evangelista João nos brinda com um verso que desmonta essa ideia de que tudo que é espiritual não trem nada a ver com o que é humano, senão vejamos:
                  Primeiro ele diz que quando Deus quis viver entre nós Ele se fez carne. Isso é lindo, pois o Deus todo poderoso que está acima de tudo e de todos toma forma de homem e nos ensina como é ser humano. Jesus poderia ter vindo em espírito, caminhar com as pessoas em espírito, mas não, Ele se fez carne e habitou entre nós. Na verdade isso é um chamado à humanidade. Em João, Deus está nos chamando, nos vocacionando para sermos gente. Ele nos convida a que vivamos nossa espiritualidade da forma mais humana possível, pois assim Jesus o fez.
                  Meus queridos e amados irmãos, o nosso chamado é para antes de qualquer coisa, refletir Jesus na nossa humanidade. Jesus tinha prazer em estar com gente, sentar com pessoas à mesa, caminhar com gente, lidar com dramas humanos, participar da alegria humana, etc. a dinâmica da vida de Jesus era do “monte” para o meio do povo e do povo para o “monte”. Precisamos de uma vez por todas entender que quando o verbo se fez carne Ele nos ensinou que ser espiritual é ser gente, é sentir a dor do outro, caminhar a segunda milha com o outro, se alegrar com os que se alegram. Todo e qualquer projeto de espiritualidade que não estimule o envolvimento com seres humanos está fadado ao fracasso. O resultado imediato da nossa comunhão com Deus não é outra coisa senão comunhão com o próximo. Foi isso que Jesus viveu!
                  Mas João vai além para nos mostrar que o resgate de nossa humanidade é algo divino: ele diz que quando o verbo se fez carne, foi que viram a sua Glória. Isso é interessante pra um povo que está acostumado com a Glória de Deus no Antigo Testamento de uma forma até “aterrorizante”. Quando a Glória de Deus enchia um lugar ninguém se continha de pé. Em Jesus não! No simples fato dele ser gente como agente, viu-se a glória do Pai. Não vamos espiritualizar achando que Jesus tinha uma áurea ao redor de sua cabeça que fazia com que as pessoas percebessem o divino. Não, o que fazia isso era exatamente a humanidade de Jesus. As pessoas viram que Ele não tratou a prostituta como os outros, que ele não tratou o leproso como os outros, foi sensível na hora de chorar a morte de um amigo, soube dar uma segunda chance até para os que caminharam junto com ele como os discípulos. A Glória de Deus foi vista na Sua humanidade.
                  João conclui o verso dizendo que Ele veio cheio de Graça e de verdade. Um ser humano cheio de verdade e sem Graça é muito arrogante e costuma ferir. Um ser humano cheio de Graça e sem verdade não desafia ao crescimento, ao amadurecimento. João nos diz que Jesus veio cheio de Graça e de verdade. Sabia dizer a verdade com doçura nos olhos, sem ferir. Gerava constrangimento nos seus ouvintes, mas um constrangimento saudável. Você já se deparou com alguém de coração tão bom e tão verdadeiro que isso tenha lhe incomodado? Alguém diante de quem você tenha se sentido minúsculo diante daquela pessoa? Creio que a presença de Jesus fazia exatamente isso com as pessoas. A Bíblia diz que “o amor de Deus nos constrange”.
Se quisermos como igreja uma relevância para nossa geração vamos ter que repensar nosso conceito do que é ser espiritual, pois pra Jesus ser espiritual tanto foi lutar com demônios, experimentar a transfiguração, como também ser o mais solidário possível com a dor e a alegria do outro. Percebo que a linguagem espiritual para as pessoas do nosso tempo é aquela que as faz perceber que tem gente como elas dispostas a caminhar com suas alegrias e choros, seus acertos e erros e suas vitoria e fracassos.
Que Aquele que foi a plenitude da humanidade nos ajude nessa caminhada espiritual
                                                                      Humberto Queiroz